Chat com a autora do livro “Mãe em Construção”, Isabel Coutinho

Na nossa plataforma tivemos a oportunidade de conversar com a Isabel Coutinho, psicóloga e autora do livro “Mãe em Construção”, sobre a maternidade nos dias de hoje. As mães puderam conversar sobre julgamentos, medos, dificuldades e desafios desse universo.

 

Gostaria de saber como lidar com tantos julgamentos? Hoje em dia, com as redes sociais, a exposição e a liberdade de expressão as pessoas te julgam o tempo todo por uma fotografia, sem saber a história por trás daquela cena, como aconteceu com aquela mãe no aeroporto com bebê no chão, por exemplo.

 

Isabel – Aquela foto da mãe no aeroporto foi bastante impactante não é? Na nossa sociedade ocidental todo mundo se sente à vontade para julgar as mães. Eu já me perguntei várias vezes o porquê disso. Tenho a sensação que a maternidade mexe com as pessoas de uma forma muito peculiar. Todos nós somos filhos de alguém! Podemos até não termos filhos, mas todos temos mães! E pensar que nossa mãe pode, um dia, ter se sentido cansada ou ter perdido a paciência ou ter desejado fazer outras coisas além da maternidade é algo que nos fere… Então preferimos nos agarrar a um ideal de maternidade perfeito e apontar o dedo para as mães do que aceitar as imperfeições desse papel. Me parece mais cômodo. Os julgamentos, por vezes, vem das próprias mulheres, já notou? No livro MÃE EM CONSTRUÇÃO eu descrevo algumas situações em que fui julgada e me senti muito mal!

 

Eu acredito muito que as mães precisam focar na maternidade, pois isso nos impede de dar ouvidos a críticas e julgamentos cruéis. Você acha que esse é um bom caminho?

 

Eu não me sinto em condições de opinar se esse é um bom caminho ou não. O que me ajuda – como mãe – é estar sempre conectada comigo, lembrando de que sempre eu estou tentando fazer o melhor que é possível para mim! Muitas vezes, eu mesma me julgo e, portanto, me sinto mais vulnerável ao julgamento dos outros! O ideal da maternidade impecável é algo arraigado na nossa sociedade. De alguma forma acreditamos que uma mulher, ao se tornar mãe, se torna um pouco santa também. E que, portanto, não vai mais se interessar pelo trabalho, por diversão, por viagens mas sim se dedicar totalmente ao filho. Essa crença parece louca, mas está muito grudada em nós. E, na verdade, eu acredito que o papel de mãe é um papel que construímos conforme nossas possibilidades, nossos valores, nossas crenças.

 

Vejo que muitas mães acabam julgando a outra por fazer algo de forma diferente. Como podemos nos ajudar mais?

 

Não existe certo ou errado. Existe o que é possível e o que é faz sentido para cada uma de nós. Mulheres ajudando mulheres! Essa é uma ideia que eu acredito muito! E não acho que as mulheres que julgam as outras o fazem porque são ruins. Mas porque, elas mesmas, têm dificuldades de lidar com o diferente! E isso é algo também da nossa sociedade vocês não acham? Acho também que vivemos em um momento muito particular, onde somos bombardeadas por uma série de “regras científicas” sobre o que é ou não bom. Isso acontece em todas as áreas – educação, alimentação, saúde e também na maternidade. Todos os dias eu leio uma série de textos diferentes sobre o que é melhor para os filhos, uma série de especialistas opinando. Acho que essa proliferação de dicas, às vezes, nos confunde. E aí, no meio disso, esquecemos de nos perguntar “isso faz sentido para mim”?
O livro MÃE EM CONSTRUÇÃO nasceu de uma série de situações onde me senti julgada, onde não soube o que fazer, onde senti medo de tomar a decisão errada. Mas acho que precisamos nos dar o direito de perguntar: existe certo ou errado? Os especialistas divergem muito!
Não estou dizendo que eles não possam nos ajudar em nossas reflexões, em momentos específicos. Acredito que podem, sim! Só penso que o discurso dele só não deveria anular o que cada um de nós, com nossas crenças, com a nossa história, com nossos valores, sentimentos em relação aos nossos filhos e suas necessidades.

 

Você falou agora que acha importantíssimo as mães se ajudarem, se julgarem menos e tal. Mas você acha que isso ainda é possível hoje em dia? Vejo muitos fóruns e grupos nas redes sociais onde as mães se julgam muito e isso não tem nada de ajuda. Acredito que seja possível sim se ajudar através dos meios online, mas acho também que nós vivemos muito na era do “fazer bonito para postar no facebook”, sabe?

 

Entendo o que você diz e me incomodo muito com esse mundo perfeito que muitas pessoas constroem no Facebook. Me pergunto sempre: só eu que me sinto cansada nas férias das crianças? Só eu que perco a paciência com meus filhos? Só eu que sinto saudades de quando podia dormir até as 10 da manhã? Porque parece tudo tão bem… Com todo mundo…
Acredito que possam existir grupos legais. Mas é difícil, as pessoas são humanas, elas têm dificuldades, medos, e lidar com o diferente aumenta o medo e a insegurança, não é?
Minha tentativa com o livro é de poder compartilhar com as pessoas um ideal de maternidade mais pé no chão, mais real, sabe? Porque eu me senti muito sozinha nas dificuldades que enfrentei e continuo enfrentando em decorrência da maternidade. Então escrevi o livro pensando em ajudar as mães. não com conselhos e dicas! Mas dividindo minhas dificuldades para que elas não se sintam tão sozinhas!

 

Para a sociedade, a maternidade é perfeita e as mães não devem reclamar jamais. Mas não é bem assim, não é verdade? Nem sempre estamos felizes e satisfeitas.

 

Eu penso que a maternidade não nos torna menos humanas. Continuamos tendo nossos desejos, aspirações, sonhos, vontades. Eu achava que, quando eu me tornasse mãe, tudo ia ficar perfeito na minha vida, que eu ia me sentir, finalmente, completa e satisfeita. E não é bem assim. A maternidade me faz viver coisas incríveis, mas me obriga, todos os dias, a tomar muitas decisões difíceis, a abrir mão de coisas que são importante para mim. É difícil achar um balanço entre a maternidade e outras áreas da vida, é um exercício de tentativa e erro, um exercício constante.
Particularmente, acho que ser mãe nos dias de hoje é bastante complexo. O que a sociedade exige de nós, mulheres, é algo impossível: trabalhar, ser independente, ser mãe, estar magra e bonita.
A conta não fecha!

 

Mesmo as empresas, também não estão preparadas para receber essa mãe. Não acha?

 

Concordo, as empresas não estão preparadas para acolherem mães. E aí que eu digo o quanto é necessário ter um suporte social mais adequado para que as mulheres possam ser mães e profissionais, se assim o desejarem. A carga de trabalho de uma profissional hoje, dificilmente, é compatível com uma mulher que gostaria de se dedicar aos filhos um pouco mais. Seria maravilhoso empresas abrirem outras formas de acolher o trabalho, horários flexíveis, meio período. É difícil para as mulheres dessa geração, que foram criadas para estudar, falar línguas, conquistar independências e etc abrir mão da vida profissional. É uma parte importante de nós!
Mas, muitas vezes, as mulheres não encontram uma possibilidade de conciliação e acabam tendo que abdicar de uma das coisas. E isso é ruim. Eu mesma mudei minha vida profissional de forma radical porque minha atividade exigia uma dedicação tão grande que ia ser difícil acompanhar a vida dos filhos.

 

Você bate muito na tecla de fazer o que é melhor para você, e eu sempre acreditei nisso também. Eu sempre me importo com o que faz sentindo para mim, nunca dei muito ouvido para crítica. Porém, tem dias que não é fácil você escutar alguém falando no seu ouvido que é certo. O que você fazia quando o julgamento te afetava mais do que deveria?

 

É muito difícil! Eu choro, me questiono, penso se não deveria fazer diferente. Críticas me afetam muito! Principalmente quando vêm de pessoas queridas, da família. O que me ocorre agora é: qual o problema de me sentir afetada pelas críticas? Elas vão me afetar, vão me entristecer, mas vai passar.
Mas não é fácil! Só estou dizendo isso porque as vezes me cobro demais! O que me ajuda é lembrar que parte dessa cobrança tem a ver com a mentalidade da nossa época, que é cruel com todo mundo e com qualquer expressão de fraqueza. O mundo de hoje é o mundo da precisão, da economia de tempo, do lucro, da rapidez dos computadores. E as relações humanas não seguem o mesmo ritmo.
O que não ajuda também é a crença de que a maternidade é um instinto e que sempre saberemos o que fazer. Eu acredito que a maternidade é um papel que construímos no dia a dia. Que, quando nasce um bebê, nasce uma mãe igualmente imatura e despreparada e que vai, com o tempo, aprender. Aprender a ser a mãe daquele filho. Tenho dois filhos e, cada um, me exige coisas diferentes. Não adianta fazer com um igual com o outro, é um aprendizado.

 

E, falando do seu livro, ele é totalmente baseado em suas experiências pessoais?

 

Meu livro é sim baseado em experiências pessoais. E não pretende dar conselhos, mas simplesmente dividir experiência. A experiência humana de ser mãe, com tudo de bom e de ruim que ela tem. Depois que fui mãe, fui estudar muito a respeito. Fiz pós-graduação em psicologia perinatal e parental, porque quis entender uma série de coisas que eu estava passando!
Mas, no livro, eu escrevo no meu papel de mãe que, todos os dias, se questiona, se vê desafiada, não sabe o que fazer. O fato de ser psicóloga e estudar sobre o assunto não me exime de viver as dificuldades dessa experiência. Até porque ser mãe não é um trabalho mental, mas nos envolve em tudo: nosso corpo, nossa história, nossos sentimentos, vivências. Não é algo somente da ordem da razão. Eu li muito antes de me tornar mãe e foi um choque descobrir que todo aquele conhecimento não garantia sucesso. E me assustei com isso! Somos ensinadas que, estudando, vamos ser bem-sucedidas na tarefa, não é? Só que isso não funciona para as relações.

 

Como mãe e escritora como você enxerga a maternidade hoje em dia?

 

Para mim, a maternidade nos dias de hoje vai na contramão dos tempos. Fui criada para ser uma mulher independente, trabalhar, estudar, falar línguas. A ser dona do meu tempo, ser produtiva. Só que a maternidade impõe uma outra lógica, você ter que se conectar com o tempo do outro, do bebê.
O sono não é mais ditado pelo seu ritmo, mas pelo ritmo do bebê. As coisas não acontecem no seu tempo, mas no tempo do bebê. E isso é muito difícil de administrar!Ainda mais que todo mundo fala da maternidade como algo super natural, tranquilo, uma vivência banal, comum. Eu sempre tive muita vontade de ser mãe e achei que seria super tranquilo para mim! Mas não foi! Foi um susto! Nem banho mais eu conseguia tomar! Foi muito desorganizador!
Aí eu achava que o problema era comigo! Muitas mulheres pensam assim. O que eu esperava da maternidade não correspondia a realidade. O que ela me exige – tempo, paciência, aprendizado, humanidade etc – não está em sintonia com o que o mundo me exigiu até então: competência, precisão, rapidez, desempenho. É quase um contra senso!

 

 

Somos Mãeshttps://somosmaes.com.br/
A Somos Mães é uma ONG e uma empresa do setor 2,5 que nasceu em agosto de 2014. Com o objetivo de informar e acolher, produz conteúdo que impacta diariamente mais de 300 mil pessoas. Tem dois projetos incentivados pela Lei Rouanet.

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