Não quero! Esse brinquedo é meu!

“Não, eu não quero!”, “Esse brinquedo é meu!”, “Não gosto mais de você!”. Essas três pequenas frases servem para ilustrar a fase que abordaremos neste artigo. Nossos pequenos estão crescendo e com isso começam a demonstrar a autonomia que estão adquirindo, seja ela de ordem biológica ou emocional, e isso inicia por volta dos dois anos e terá sua dissolução por volta dos quatro anos. Biologicamente a criança tem um ganho muito significativo nesta fase, como exemplo destaco o controle dos esfíncteres, esse ganho possibilita a primeira experiência de poder que nossos pequenos terão na vida, pois eles passam a controlar seus pequeninos corpos e tentam (e muitas vezes conseguem) exercer poder em tudo o que eles fazem. Por isso, iniciei o artigo com frases tão imperativas.

 

Cognitivamente (na construção de sua inteligência), nossos pequenos começam a adquirir características de um pensamento um pouco mais articulado, já possuem a capacidade de atribuir sentido inanimado, ou seja, dar vida aos seus brinquedos, e quando brincam tentam produzir sons, gestos, e se concentram a tal ponto que parecem estar em outro tempo espaço. É bem interessante destacar que, como sua percepção é fragmentada, a criança escolhe um filme ou desenho de sua preferência e o assiste por muitas e muitas vezes, nós mães nos cansamos com o enredo do desenho na segunda vez, mas nossos pequenos estão lá vidrados assistindo incansavelmente pela centésima vez o mesmo desenho. Isso acontece porque eles percebem apenas partes do desenho ou filme, por isso cada vez que eles assistem acabam percebendo uma parte nova do contexto, e demoram a construir o todo.

 

Mas o que é mais difícil para nós é, sem dúvida, a manifestação das atitudes emocionais dos pequenos, já que em potencial eles podem fazer com que nós, mães de primeira viagem, passemos vergonha no mercado, por exemplo, pois vão querer certamente algo que falaremos não e começarão sua sessão de gritos, choros e manifestações agressivas na frente de todos para conseguir de fato exercer o poder, que é natural que eles vivenciem nesta fase. Destaco que essa atitude de poder que estão aprendendo a vivenciar é inconsciente e que mesmo sem ter consciência dos fatos, já perceberam que a vida sem a palavra “não” é muito mais prazerosa e assim tentarão a todo custo fazer somente “o que eles querem”. O que é muito importante para nós é entendermos que tudo isso ocorrerá, e que isso não tem a ver com a educação que damos, e sim como um reflexo da formação do aparelho psíquico, e que, em algumas crianças essa fase é mais intensa e em outras é mais amena. A questão que fica no ar é: “O que fazer nestes momentos onde eles tentam impor seu poder?”.

 

Penso como psicóloga que inevitavelmente nossos filhos terão frustrações, pois é impossível um mundo onde só fazemos o que queremos. Acredito também que são os pais que tomam muitas decisões para os filhos, pois eles ainda não possuem discernimento para saberem o que é melhor para eles em determinadas situações. Desta forma, os pais têm que ensinar com muito amor e carinho pequenas doses de regras, limites e frustrações aos nossos pequenos, dizendo algumas vezes a palavra não. Uma criança não deveria comer só o que ela quer, pois temos que prover uma alimentação equilibrada e balanceada para eles, ela não pode decidir quando quer ou não ir para o colégio, pois essa decisão que cabe aos pais e não aos filhos. Acredito que o grande diferencial aos pais é compreender que tudo isso acontecerá e que devemos ensinar os limites e regras com muito amor e não em um ambiente que reforça mais a agressividade e o poder aplicado de forma arbitrária. A escritora Laura Gutman descreveu em sua conferência em São Paulo de forma belíssima, como nascemos com um grande potencial de amor e que nós, mães e pais, temos a grande responsabilidade de fazer com que o poder do amor seja um fio condutor de construção de pessoas bem equilibradas, mas apenas sinalizo citando Içami Tiba, que “Quem Ama Educa”. A grande tarefa das mães de primeira viagem é encontrar um equilíbrio entre o amor e a educação.  

Daniele Batagin

Graduada em psicologia e mestra pela PUCSP.

Atua em consultório próprio como psicóloga clínica em Campo Limpo Paulista, interior de São Paulo.

CRP 06/79756

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A Somos Mães é uma ONG e uma empresa do setor 2,5 que nasceu em agosto de 2014. Com o objetivo de informar e acolher, produz conteúdo que impacta diariamente mais de 300 mil pessoas. Tem dois projetos incentivados pela Lei Rouanet.

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