Professora de Medicina do CEUB explica como saber se o bebê está mamando o suficiente, quando a fórmula pode ser necessária e como manter a amamentação
Manter o aleitamento materno exclusivo até os seis meses, como recomendam o Ministério da Saúde e a Organização Mundial da Saúde (OMS), continua sendo um desafio para muitas famílias. Dados do Estudo Nacional de Alimentação e Nutrição Infantil (Enani) mostram que apenas 45,8% dos bebês brasileiros menores de seis meses recebem exclusivamente leite materno. O percentual ficou abaixo da meta global de 50% estabelecida para 2025. Até 2030, a OMS pretende elevar esse índice para 70%.
Embora 96,2% das crianças menores de dois anos tenham sido amamentadas alguma vez, a interrupção do aleitamento exclusivo costuma acontecer antes do recomendado, muitas vezes por volta do terceiro mês de vida. Segundo a pediatra Andrea Jácomo, professora de Medicina do Centro Universitário de Brasília (CEUB), a falsa ideia de que existe “leite fraco” continua sendo uma das principais causas desse abandono precoce.
“O leite materno não é fraco. O que acontece, muitas vezes, é que a mãe interpreta alguns comportamentos naturais do bebê como sinal de fome. Nos primeiros dias de vida, ele ainda está aprendendo a mamar e se adaptando ao ambiente”, explica. A especialista alerta que comentários de familiares, palpites e conteúdos sem respaldo científico aumentam a insegurança das mães e favorecem a introdução precoce de mamadeiras.
Para saber se o bebê está mamando adequadamente, é necessário observar o conjunto de sinais clínicos, como ganho de peso, frequência das mamadas, quantidade de urina e estado de hidratação. “Acompanhar o peso, as mamadas e a diurese ajuda a tranquilizar a mãe e reduz significativamente o risco de interrupção precoce da amamentação.” Segundo Andrea, fatores como dor, privação de sono, estresse, ansiedade e desidratação podem interferir temporariamente na produção e na ejeção do leite.
Nem toda dificuldade exige fórmula
Embora o leite materno seja considerado o alimento ideal para o bebê, existem situações em que a complementação com fórmula infantil pode ser necessária. Prematuridade, restrição de crescimento intrauterino, cardiopatias, síndromes genéticas e outras condições clínicas podem dificultar a sucção. Problemas de saúde maternos e a falta de orientação durante o pré-natal ou nas primeiras consultas pediátricas também podem comprometer o aleitamento.
Antes de indicar a fórmula, no entanto, a docente do CEUB destaca que é indispensável avaliar mãe e bebê em conjunto: “Não basta olhar apenas para o bebê. É preciso avaliar as condições da mãe, o ganho de peso da criança, a hidratação, a posição e o ritmo das mamadas. A fórmula pode ser necessária em alguns casos, mas essa decisão deve ser tomada após avaliação cuidadosa.” Quando existe indicação clínica, acrescenta a pediatra, a fórmula é alternativa segura para garantir o crescimento saudável da criança.
Volta ao trabalho ainda interrompe a amamentação
Outro desafio aparece quando termina a licença-maternidade. A recomendação do Ministério da Saúde é manter o aleitamento materno exclusivo até os seis meses e continuar amamentando junto com a alimentação complementar até os dois anos ou mais. Na prática, porém, muitas mulheres retornam ao trabalho antes desse período.
Para a pediatra do CEUB, o planejamento faz diferença. Andrea Jácomo recomenda iniciar, ainda durante a licença, a retirada e o armazenamento do leite para que ele possa ser oferecido ao bebê enquanto a mãe estiver ausente. Também orienta que o leite seja servido em copinho ou colher, evitando a introdução precoce da mamadeira. Além disso, defende que empresas e instituições de ensino disponibilizem salas adequadas para extração e armazenamento do leite. “Quando existe apoio da família e do ambiente de trabalho, as chances de manter a amamentação aumentam bastante”, finaliza.
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